sábado, 29 de janeiro de 2011

"Por toda a parte vejo reinar a alegria da qual estou irrevogavelmente excluído. Eu era benévolo, bom; a desgraça tornou-me um demônio?"
(Mary Shelley - Frankenstein; 1818).


Se eu devo ficar sozinho, leve com você todos os pedaços disso
Se devemos pisar em tudo o que está vivo na lembrança,
Estamos perdidos no tempo

Te ofereceria a lágrima mais pura
A gota mais doce das profundezas do meu desespero
Mas apenas vá, apenas vá

Eu ainda te ofereceria um mundo de açúcar
Com as pérolas mais brancas para enfeitar o seu ego
Te daria toda a minha razão pendurada num colar de ouro

Mas se nada te sustenta por tanto tempo
Apenas vá e me deixe morrer sozinho

Eu criaria um reino e te coroaria como Deus
Te banharia em águas perfumadas por âmbar
E como uma fênix, tudo renasceria das cinzas

E poderíamos cobrir todo o céu com o brilho
De cada pedaço do seu espelho, espalhado por esse chão
Se você deve ir, apenas vá

Me deixe dormir como um bebê atrofiado
Lançado a um vulcão já adormecido por tanto esperar
Apenas vá e deixe-me contemplar esse paraíso doloroso

Deixarei de ser a tua sombra
Deixarei de ser tua essência
A sua alma vazia
Apenas vá, e consuma sozinho cada grão dessa sua estricnina reluzente


- Escrevi o poema baseado nos versos: "Me deixa só / Errada e complicada / Não imponha tua mão no meu caminho / Eu prefiro amar tua distância / A morrer em outra despedida
Por Maysa e Roberto Menescal

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

"And you know I'm drowning"


"Suas longas vestes se abriram, flutuando sobre as águas; como sereia assim ficou, cantando velhas canções, apenas uns segundos. Inconsciente da própria desventura."
- (Hamlet, Shakespeare-p.145)



Durante todo o caminho de volta estive pensando em Ophelia, de Hamlet. Imaginava-a como uma mulher lânguida, pálida, lábios de cor viva e cabelos negros. O Google me remete a uma visão mais profunda de Ophelia; uma interpretação mais palpável dessa personagem que tanto me encanta.
A imagem de Ophelia se afogando soa como um ícone escapista. Não somos livres, não temos nenhum poder de escolha e enlouquecemos à medida que enxergamos isso. A solidão (a nossa ou a de Ophelia) encontra sua natureza, livre e selvagem nas águas.
O instinto de Ophelia falhou ao permitir que fosse conduzida por outros. E essa condução leva ao desejo de aprovação da identidade: "Não sou nada se ninguém me reconhecer" ou "Só posso me amar se alguém o fizer primeiro". (Contexto apropriado para os meus últimos dias, não?!)
Ophelia é vitima da incapacidade de esquecer de Hamlet, um homem amargo e ressentido. Se a Fabi estiver lendo isso e souber sobre o que eu estou falando ela logo pensará "É preciso esquecer".
Eu sei, eu sei. É preciso esquecer, mas forçar o esquecimento é DOMINAÇÃO. Dominação da dor da lembrança, dominação daquela cena em tons de sépia girando em sentido horário na sua memória.
Então, Ophelia, sob o ponto de vista "moderno" nos direciona a um mundo onde não se pode viver sem saudar ou carregar inúmeras dores. Ou mais à fundo: somos todos Ophelias niilistas, esperando que a vida nos dê um pedacinho da felicidade ou então esperando que a morte nos traga felicidade. Todos nós temos um Hamlet materializado ou incorporado, e não podemos fugir dele. Nos está predestinado a sofrer por um amor, por culpa, por ódio ou auto-ódio...
O que pode fazer a diferença é se "aprendermos a sofrer direito" para escapar da "dominação" e buscar a liberdade (que cada vez mais soa como utopia)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

"Skinny little bitch... Pray to the Lord!

Pray for some salvation (...)"
Hole - Skinny Little Bitch


Eu sempre repito que nunca farei um blog. Talvez eu seja dominado demais pelo tédio para voltar atrás, ou sei lá.
Esse aqui saiu das sombras e isso se deve as palavras que tanto têm sangrado de mim ultimamente. Poemas, escritos para passar o tempo, música entre outras formas...
Não é a Sertralina, não é o verde. É o mundo, sou eu, é a minha vida. São todas as coisas que não cabem dentro de mim e pedem para sair. Talvez seja por isso que retirei um blog das sombras: a necessidade de colocar essas palavras pra fora, em suas variadas formas e emoções.
Tenho farejado coisas, um mundo diferente, alguma coisa vindo... Ou sentindo que alguma coisa está mudando. Nunca consegui nada ao tentar escrever com sentimentos positivos, mas é como se dessa vez fosse diferente. Por alguma razão eu voltei a sentir as coisas de novo. Posso escrever, dizer coisas sobre a tristeza e a dor nas minhas músicas (porque é assim que eu gosto), posso viajar na fossa mas ainda assim poderei me sentir iluminado e feliz como tenho me sentido.
Então eu devo agradecer à todas as pessoas que tem estado comigo e me fazendo ver o mundo e toda a vida por um ângulo diferente.
E para fechar a noite, vamos lembrar que é aniversário do Tom Jobim. Então fica a divina Maysa cantando uma música dele (não precisa ouvir quem não quiser!).