quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

"And you know I'm drowning"


"Suas longas vestes se abriram, flutuando sobre as águas; como sereia assim ficou, cantando velhas canções, apenas uns segundos. Inconsciente da própria desventura."
- (Hamlet, Shakespeare-p.145)



Durante todo o caminho de volta estive pensando em Ophelia, de Hamlet. Imaginava-a como uma mulher lânguida, pálida, lábios de cor viva e cabelos negros. O Google me remete a uma visão mais profunda de Ophelia; uma interpretação mais palpável dessa personagem que tanto me encanta.
A imagem de Ophelia se afogando soa como um ícone escapista. Não somos livres, não temos nenhum poder de escolha e enlouquecemos à medida que enxergamos isso. A solidão (a nossa ou a de Ophelia) encontra sua natureza, livre e selvagem nas águas.
O instinto de Ophelia falhou ao permitir que fosse conduzida por outros. E essa condução leva ao desejo de aprovação da identidade: "Não sou nada se ninguém me reconhecer" ou "Só posso me amar se alguém o fizer primeiro". (Contexto apropriado para os meus últimos dias, não?!)
Ophelia é vitima da incapacidade de esquecer de Hamlet, um homem amargo e ressentido. Se a Fabi estiver lendo isso e souber sobre o que eu estou falando ela logo pensará "É preciso esquecer".
Eu sei, eu sei. É preciso esquecer, mas forçar o esquecimento é DOMINAÇÃO. Dominação da dor da lembrança, dominação daquela cena em tons de sépia girando em sentido horário na sua memória.
Então, Ophelia, sob o ponto de vista "moderno" nos direciona a um mundo onde não se pode viver sem saudar ou carregar inúmeras dores. Ou mais à fundo: somos todos Ophelias niilistas, esperando que a vida nos dê um pedacinho da felicidade ou então esperando que a morte nos traga felicidade. Todos nós temos um Hamlet materializado ou incorporado, e não podemos fugir dele. Nos está predestinado a sofrer por um amor, por culpa, por ódio ou auto-ódio...
O que pode fazer a diferença é se "aprendermos a sofrer direito" para escapar da "dominação" e buscar a liberdade (que cada vez mais soa como utopia)

2 comentários:

Anônimo disse...

Nos está predestinado (meros mortais) a sofrer por um amor, por culpa, por ódio ou auto-ódio...Nós precisamos de algum sentido mesmo que seja superficial para nos matermos vivos.

Fabiana disse...

Cuidado para não se acorrentar à sua liberdade de sofrer...